• Be Brasil
  • Creative Industries

Algodão naturalmente colorido do Brasil encanta o mundo

Durante a colonização do Brasil pelos portugueses, o estado nordestino da Paraíba era o maior produtor de algodão do país. Mas essa prosperidade do século XVIII não perdurou até o século XX.

Na década de 1980, a produção local caiu tanto em quantidade quanto em qualidade, e a região começou a importar, ao invés de vender, algodão. Muitos fazendeiros decidiram abandonar o algodão totalmente e plantar outros produtos. Atualmente, entretanto, a Paraíba se tornou sinônimo de uma cadeia de produção de algodão orgânico e naturalmente colorido da mais alta qualidade no mundo. E tudo isso graças à intensiva pesquisa realizada pelas instituições do estado e a uma empresária chamada Francisca Vieira.

Na virada do século XXI, Francisca Vieira era dona de uma típica fábrica de roupas. Quando os produtos chineses invadiram o mercado brasileiro, ela enfrentou um dilema: fechar a fábrica ou transformar sua companhia. Vieira escolheu a segunda opção, dando origem à Natural Cotton Color (NCC), uma companhia totalmente baseada em produtos locais e empregando apenas mão de obra local. Sua cadeia de produção está 100% localizada no estado da Paraíba, e seus fornecedores são pequenas famílias que operam fazendas de algodão. A cadeia de produção da NCC emprega mais de 800 pessoas.

A NCC utiliza um tipo inovador de algodão, que é orgânico e naturalmente possui diferentes tons de marrom. Esse algodão foi desenvolvido pela estatal Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). “O algodão naturalmente colorido não é uma novidade” ─ afirma Vieira ─ “mas essas fibras eram muito finas e curtas, e não serviam para fabricar roupas. Após 10 anos de pesquisa, a Embrapa desenvolveu uma fibra longa o bastante para que pudéssemos usá-la”.

Essa nova fibra não requer o uso de produtos químicos. Isso reduz o consumo de água em 87%, pois não há mais produtos tóxicos para remover. Também significa que a água usada para fabricar uma camisa pode ser reutilizada na fábrica – algo que não pode ser feito se a água estiver cheia de produtos químicos.

A companhia tem uma linha de mais de 1.000 produtos, variando desde vestuário infantil até calçados, e incluindo bolsas e acessórios. Cada produto é projetado e feito à mão por um artesão local. O preço médio de uma camiseta é de US$ 10, enquanto um vestido custa cerca de US$ 50.

Desde que fundou a NCC, há treze anos, Vieira tem tido um estrondoso sucesso. A NCC já exporta para dez países, e foi a primeira empresa brasileira a ser convidada à Maison d’Exceptions, um dos eventos de maestria artesanal mais exclusivos no mundo. Em setembro, Vieira levou a NCC à Paris novamente, como parte da Biennale Émergences Métiers d’Arts et Design. 

A NCC se tornou fornecedora de uma companhia francesa de produtos de luxo (Vieira assinou um contrato de confidencialidade com a marca) e está em negociações para vender seus produtos na Whole Foods, uma rede americana conhecida por sua ênfase em produtos sustentáveis e orgânicos.

Mas os valores de sustentabilidade da NCC não estão limitados ao meio ambiente. Todos os fornecedores da companhia são empresas familiares, e Vieira paga R$ 10 por cada quilo de algodão bruto. Isso é mais do que o dobro pago por outras companhias – e o maior preço praticado no Brasil. “Não há motivo para fazer diferente. Um bom negócio é quando eu ganho dinheiro, assim como cada um dos meus parceiros de negócios”, explica Vieira. “Na minha cadeia de negócios, cada elo depende dos outros para sobreviver”.